Paulo Coelho e a vingança
Caros amigos que acompanham meu trabalho literário,
em 1990, quando era editor de Cultura da revista Istoé, exerci meu direito de crítica ao escrever que um dos livros de Paulo Coelho era muito, muito ruim. Para vocês terem uma ideia, eu nem me lembro do título. Mas, aparentemente, Coelho jamais conseguiu superar esse fato irrelevante na sua trajetória de sucesso. Como editor-executivo de Veja, pautei matérias (de capa, inclusive) para comentar o êxito do mago no exterior, sem deixar que minha opinião pessoal sobre seus livros se impusesse. De lá para cá, tivemos alguns contatos telefônicos e por email, todos muito simpáticos. Por isso, surpreendi-me com os tweets virulentos que ele postou contra mim, afirmando que eu era um escritor “insuportável” e também um sujeito “vingativo”. Para reforçar essa última, digamos, opinião, ele colocou um link para a página de um blogueiro que está sendo processado por mim, por calúnia e difamação. Coelho talvez não saiba que, por causa do link, eu também poderia processá-lo, coisa que não farei. Só gostaria de dizer que, talvez por eu não fazer mais parte da direção de Veja, Coelho se sentiu à vontade para atacar-me, no que só posso interpretar como uma vingança à longínqua resenha escrita por mim em 1990. O vingativo, pois, é ele. Não importa, continuo a defender que haja espaço para os livros de Coelho, mesmo que não goste deles. E apenas posso lamentar que ele me ache um escritor “insuportável”. Coelho tem o direito de mudar de opinião. Em maio de 2010, como escreveu a mim, a avaliação dele sobre o meu trabalho literário era oposta, como pode ser visto na troca de emails que reproduzo abaixo. Na ocasião, o elogio foi a meu segundo livro de contos, “A Boca da Verdade”, o último publicado antes do meu último romance, “O vício do amor”. Apesar de tudo, mando o meu abraço a Coelho, que se deixou tragar pela vingança, mas com certeza já deve ter recobrado o bom senso.
Mario Sabino
Email de Paulo Coelho a Mario Sabino, com a respectiva resposta:
—–Mensagem original—–
De: Mario Sabino
Enviada em: sexta-feira, 4 de junho de 2010 16:33
Para: ‘Paulo Coelho’
Assunto: RES: A boca da verdadePaulo,
You may be right.
Um abraço,
Mario—–Mensagem original—–
De: Paulo Coelho [mailto:alkmist@wanadoo.fr]
Enviada em: segunda-feira, 31 de maio de 2010 17:28
Para: Mario Sabino
Assunto: A boca da verdadeBoa tarde Mario:
comprei apenas por obrigação, porque costumo ler quase tudo que posso, e seu
livro estava na minha lista.
Acontece que – para minha supresa, devo confessar – gostei muito.
Imagino que a Record deve vende-lo na Feira de Frankfurt. Importante, porque
seu trabalho merecia ser lido na Europa. Eu pessoalmente não posso ajudar
muito, mas me ofereço, se voce quiser, escrever uma “quote” quando o livro
estiver publicado.
Estou anexando a foto do livro, justamente no dia (hoje) que terminei a
leitura.
Abraços
Paulo

Conselho: responda que a sua “quote” sera’ mais u’til a G. Chalita.
Não é vingança, Mario. É minha opinião sobre o “Vicio do Amor”.
Não sou ingênuo. Gostei de “A boca da verddade”e escrevi o email. Teria o maior prazer em em endossar o livro no exterior, como disse antes.
Não tenho memória curta. Sabia que você tinha esse email, e o usaria – como está fazendo agora.
Mas detestei “O vício do amor” e escrevi o tweet.
Vejo que foi interpretada como vingança e tenho minha dose de culpa por esta interpretação, porque infelizmente usei o blog do Nassif, coisa que não farei mais. Tenho minhas próprias armas para lutar pelas minhas convicções, da mesma maneira como voce tem as suas.
Deletei o post em questão (Nassif) quando me alertaram sobre o processo, que desconhecia por completo.
Mas deixei a referência ao “insuportável” livro.
Não ao “insuportável” autor – não tenho a menor razão para dizer isso, sobretudo porque, como diz acima, nossa relaçao se resume à conversas cordiais.
Repito portanto o post para não deixar espaço aberto à mal-entendidos:
Paulo Coelho @paulocoelho 9 Jan
Raramente uso Twitter p/criticar, mas o novo ivro do Mário Sabino, que a @veja adorou, é simplesmente insuportável
P.S. – por favor, evite ameaças. Como disse em outro tweet, “Só um tolo ameaça. E só outro tolo sente-se ameaçado”.
(Mario, se puder, acrescente no post acima, mudando o P.S.)
Tampouco me lembro de alguma vez ter lido qualquer crítica sua a respeito de um livro meu.
Prezado Paulo Coelho,
você não fez apenas “crítica literária”. Você usou de uma arma suja para me atacar, ao remeter os leitores de seu twitter para o blog de um desclassificado — e agora, percebendo a besteira, tenta retroceder, de acordo com o previsto por mim, visto que, apesar de tudo, você tem bom senso. Você não é tolo, nem eu. Eu não represento uma ameaça a você, nem você a mim. Inclusive porque já enfrentei (e enfrento) gente bem mais poderosa do que você. Como o seu amigo José Dirceu, por exemplo. Ah, sim, para a sua informação, dei uma entrevista ao programa de rádio do jornalista Daniel Piza, no início de dezembro, a convite do próprio. Piza não achou meu livro “insuportável”. Nem a Folha, nem o Estadão, nem a Gazeta do Povo, nem O Globo, nem a revista Alfa, nem o portal Exame, nem a Mônica Waldvogel, nem o Edney Silvestre, nem o Jô Soares, nem o Manuel Costa Pinto. Quanto ao Piza, é uma vergonha a exploração política da morte de um jovem como ele. Muito feio.
Mario,
Ensine o Coelho a usar crase.
Ana
Mais um que deveria ter permanecido quieto. No Paulo Coelho o tamanho da vasta cabeça não reflete o conteúdo do encéfalo, mas a quantia de sinapses intestinais que afloram pela sua boca.
Mário, comprei teu livro, recomendei e leria qtos forem necessários. Odeio paulo coelho, e ninguem tem coragem de dizer isso, abçs.